Assédio sexual: é hora de falar sobre isso

Veículo: Correio de Campinas

No ônibus, na rua, na padaria, no supermercado. No trânsito, na fila do banco, no estacionamento do shopping, na sala de espera do consultório. No parque, no cinema, no restaurante ou na praia. No ponto de ônibus. Até na igreja. E agora também nos bastidores da maior rede de TV no Brasil, onde um ator renomado e com fama de galã foi acusado de passar dos limites com uma figurinista com quem trabalhava diariamente. “Você nunca vai dar para mim?”, costumava gritar, em meio ao ambiente de trabalho e na frente de diversas testemunhas — que jamais reagiram ou intercederam. Até que a vítima não suportou mais e denunciou as abordagens indesejadas.

O assédio sexual contra mulheres está entranhado entre os costumes na nossa cultura, e tem sido tratado por décadas (ou séculos?) como algo normal, quase um direito outorgado ao homem. É motivo de orgulho para quem pratica, vira piada quando passa do limite diante de outros olhos. E garante a perpetuação do machismo em uma sociedade que convive muito bem com esse tipo de comportamento.

Mas as coisas parecem estar mudando. De até então feministas radicais, vítimas têm se transformando em mensageiras de um movimento que parece querer caçar essa licença e estabelecer novos limites para a convivência respeitosa. Nesse aspecto, a figurinista atacada por Mayer, Su Tonani, de 28 anos, se transformou em um ícone. Reagiu, foi a público e colocou seu agressor em xeque.

Quadro assédio sexual

Desrespeito

O assédio sexual é um ato desrespeitoso, grosseiro e violento que ignora a individualidade da mulher e avança o sinal em vários sentidos. Nem sempre ele chega às vias de fato. Pode ser uma coisa silenciosa, só de olhar, ou algo recheado de palavras — não necessariamente “sujas”. É possível, acredite, desrespeitar uma mulher com palavras polidas e bem escolhidas — que ela vai odiar tanto quanto um deselegante “gostosa” que ouve no meio da rua ou uma grosseira “passada de mão”, como foi o caso de Mayer.

Em geral, o assédio está ligado ao machismo e à cultura de que o homem toma a iniciativa e a mulher deve se sujeitar a isso. Muitos ainda consideram “inaceitáveis” alguns comportamentos femininos, como sair de casa sem o marido, usar roupas curtas, justas ou decotadas e até uma saliente “alegria” depois de tomar algumas doses a mais.
Além da indignação e do medo, o assédio pode causar, segundo especialistas, transtornos psicológicos severos que podem acompanhar a vítima pelo resto da vida.

Reação

O caminho da reação feminina passa pela denúncia dos casos. Nem todas têm o mesmo acesso à mídia que a figurinista atacada por José Mayer, mas cada uma pode botar a boca no trombone da sua maneira. Redes sociais são ótimas para isso.

O assédio não é normal. A sociedade não pode naturalizar essa violência, esse desrespeito instituído. As mulheres, para isso, precisam denunciar. A coisa é tão séria que deveria ser ensinada às crianças em casa e até nas escolas.
“Penso que, enquanto cidadãos, podemos trazer o debate para perto. Podemos cuidar do nosso jardim. Podemos fazer esse debate no meio corporativo, abordando-o de variadas formas”, afirma o advogado Marcus Vinicius Ramos Gonçalves, que comanda a Campanha de Combate e Prevenção ao Assédio Sexual no Trabalho.

Para ele, a prática se caracteriza quando a pessoa abordada não aprova o ato. “A paquera, a sedução, comuns nas relações humanas, não configuram assédio sexual. Porém, para que isso assim se confirme, é preciso que a pessoa ‘cortejada’ sinalize com receptividade ao galanteio, à cantada. Se a abordagem for prontamente reprimida, não há receptividade. Se reiterada e repetida, causar constrangimento, receio, aflição; é assédio. Assédio causa dor, vitima, marca. Não adianta o assediador se desculpar…O mal está feito”, diz.

“Reparem que em nosso dia a dia não nos chocamos como a propaganda de cerveja que só mostra peito e bunda de mulher. Notem que sequer fazem qualquer menção às qualidades e sabores da cerveja. É só bunda e peito de mulher. Podemos observar, inclusive, que em tais anúncios o foco da câmera não está no rótulo da cerveja, ou na garrafa, ou na marca. Nada”, disse.

Segundo ele, as formas de abordagem variam de “diferentes e cheias de criatividade” às conhecidas grosserias. “Elogios ligados à beleza e forma física, brincadeiras de duplo sentido, mãos que pegam ou encostam, apelidos para dar/trazer intimidade, comentários com colegas sobre os atributos físicos, sempre audíveis por aquela que é a detentora de tais atributos. Estas são formas até ‘brandas’. Existem situações em que, face ao poder que de alguma maneira o assediador exerce, por conta de seu cargo ou função, vincula manutenção do emprego, ascensão na carreira a uma ‘retribuição’ de cunho sexual’”.

Culpa

“Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas as vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, garanhão da ficção, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?”, disse Su Tonani.

NO BAR

Inayara Vanegas, 24 anos, jornalista

“Estávamos esperando uma mesa. Uns homens de outra mesa começaram a mexer com a gente. Primeiro me chamaram para sentar com eles, respondi que não, obrigada. E começaram os insultos: “gostosinha”, “adoro mulher brava”. Passaram a mão na cintura, pegaram na minha mão. Fomos para o outro lado do bar. De longe, continuaram com risadinhas, beijinhos. Fui até lá e falei: “qual o problema? Já pedimos para parar”. Foi quando ele deu aquela risada sarcástica e falou algo do tipo “gostosa, adoro mulher brava”. Eu não me aguentei e dei um tapa na cara dele.

apinha bobo, não tenho força para machucar. O cara veio, me puxou pelo cabelo e me bateu. Tiveram que tirar ele de cima de mim, ele estava dando porrada em uma mina. E quando já afastado por várias pessoas, continuou segurando minha mão e virando meu dedo, querendo quebrar. E o que garçons e gerente fizeram? Expulsaram A GENTE do bar. Fiz questão de perguntar para o gerente: Estão assediando suas clientes dentro do seu bar e você não vai fazer nada? Recebi de volta um olhar de reprovação e um “eu vou fazer o que? Nada.”

Julgaram o tamanho da minha saia e acharam que estavam no direito de me assediar. Foda-se a minha saia. Vou usar saia curta quando e onde eu bem entender. Quando a sociedade vai entender que isso não é um convite? Quando vou ter liberdade com meu corpo?

NO TRABALHO

Patrícia Penzin, 40 anos, jornalista

Quando tinha 16 anos trabalhava em uma locadora de vídeos no Castelo, em Campinas, e costumava ficar sozinha durante as manhãs. Um dia um homem loiro e bem arrumado entrou e me perguntou onde ficava a sessão de pornôs. Indiquei o caminho e pouco tempo depois ele pediu minha ajuda. Fui até ele e perguntei o que precisava. O homem, de uns 25 anos, me puxou pelo braço e começou a falar um monte de obscenidades, dizendo que queria fazer sexo comigo. Eu disse que ele estava louco, me soltei, pedi para ele ir embora e tentei caminhar até o telefone, mas ele novamente me agarrou pelo braço e tentou me arrastar para os fundos da loja.

Eu me debatia, gritava, xingava, mas não tinha ninguém para ouvir. E sabia o que aconteceria se ele conseguisse atravessar a porta que separava a loja do resto da casa. Como o homem não estava armado, resisti. Me debati o quanto pude, acertei alguns tapas e consegui me desvencilhar.

Corri até o balcão para procurar um estilete. Ele veio atrás, me alcançou antes que eu pudesse entrar no espaço. Me debati mais um pouco, jogando o corpo com força para os dois lados, até que alcancei um estilete. Não pensei duas vezes e o acertei no rosto.

Fui tentando acertar mais golpes, levando-o em direção à parte externa da locadora. Foi somente nesse momento que um dos vizinhos percebeu que havia algo errado ali e veio em meu socorro. O homem fugiu com um corte no rosto.

NO ÔNIBUS

Virgínia Alves, 24 anos, jornalista

Entrei no ônibus achando que estava com sorte naquele dia: apesar de ser horário de pico, o coletivo não estava lotado de gente e, mesmo ficando em pé, a situação ainda era “confortável”. Peguei o coletivo no Jardim Guanabara e o destino final era a movimentada Av. João Jorge.

No ponto seguinte ao meu subiu um homem, que aparentava ter uns 70 anos. Também ficou em pé, logo atrás do motorista. Nem cinco minutos de viagem e ele já começou a me incomodar, sem nenhuma freada brusca, ou algo do tipo. Ele insistia em ficar muito próximo.

Perguntei se estava com algum problema e precisava de ajuda, o homem apenas respondeu que “não, está tudo bem”. Segundos depois, estava eu lá: entre as grades do ônibus e o sujeito, que resolveu que aquela posição era confortável pra ele.

Já aos berros, na terceira vez que ele investiu contra mim, perguntei se realmente estava tudo bem ou se era louco mesmo. O homem assustou, me respondeu que não, disse que louca era eu!

Ele desceu no ponto seguinte. A linha 371 (Estação Parque Prado – Shopping Dom Pedro) nunca está vazia e naquele dia todos os bancos estavam ocupados.

Todos, inclusive o motorista, viram tudo que aconteceu e ninguém fez nada. Pelo contrário, os olhares só confirmaram que louca era quem estava gritando. Por sorte, meu ponto era o próximo e a viagem terminou logo. Sem outros problemas.”

NA BALADA

Bianca Vincent, 36 anos, advogada

Estava voltando de uma festa no bairro Chácara Urbana, em Jundiaí, e parei para comer alguma coisa em uma lanchonete.

Quando fui chamar um motorista do Uber pelo aplicativo, para ir embora para casa, o sinal do meu celular caiu e o gerente da lanchonete percebeu que eu não estava conseguindo. Então ele me indicou um cara que, segundo ele, trabalhava como Uber e que estava na casa.

Eu aceitei a indicação e entrei no carro porque tudo me levava a crer que realmente era um Uber, mas quando eu entrei descobri que não era. Ele tentou tocar nos meus seios logo de cara, e eu consegui sair correndo do carro. Saí correndo e voltei para a lanchonete. Lá o gerente fingiu que não sabia nada de nada.

Por ele ter fingido que não sabia de nada, vou processar a lanchonete, já que o gerente me induziu ao erro ao me indicar um transporte clandestino, e ainda por cima, depois, lavou as mãos. Eu ainda não fiz o boletim de ocorrência porque meu advogado está viajando, mas ainda estou no prazo para isso. Me senti muito triste e com muita raiva pelo que aconteceu.

A verdade é que eu nunca vou esquecer o que aconteceu e o rosto do canalha. Hoje eu estou mais esperta. O mais difícil disso tudo é ouvir críticas, como se a vítima fosse culpada do assédio. É muito relevante, importante que homens brancos e ricos — como José Mayer — sejam denunciados e punidos.

Você gostaria que sua filha fosse tratada dessa forma?

A figurinista da Rede Globo Su Tonani acusou o ator José Mayer de assédio sexual no local de trabalho de ambos e expôs em redes sociais a história, que levou ao afastamento do ator pela emissora após uma onda de protestos.
“Lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus ‘elogios’. Do ‘como você se veste bem’, logo eu estava ouvindo: ‘como a sua cintura é fina’, ‘fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho’, ‘você nunca vai dar para mim?’”, disse, em sua carta.

“Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim — ou por isso mesmo — sentir medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres: “ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e maldosas?”

“Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: “Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?”
Mayer pede desculpas. Isso resolve?

Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso não basta. É preciso reconhecimento público. Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior. Sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são.

Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar com ele. Este é o meu exercício, compromisso. Isso é o que eu aprendi.

A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é entendimento deste meu movimento de mudança. Espero que este reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração, aos que pensavam da mesma forma, aos que agiam da mesma forma, que os leve a refletir e os incentive também a mudar.

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